CRÍTICA | “Pobres Criaturas”: uma crônica racional sobre a irracionalidade do moralismo.

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Com o passar dos anos, as inúmeras adaptações do clássico “Frankenstein” imortalizaram na cultura pop as figuras de criador e criatura. Bebendo desse conceito e no auge de sua complexidade, o renomado diretor Yorgos Lanthimos (A Favorita) dá vida a “Pobres Criaturas”, uma ficção científica distribuida pela Searchlight Pictures e baseada no livro homônimo do escocês Alasdair Gray. Ovacionado mundialmente durante os circuitos, o filme já coleciona dois Globos de Ouro, um Leão de Ouro e um Critic ‘s Choice Award além das notáveis onze indicações ao Oscar. Depois de ter sido exibido no Festival do Rio em outubro de 2023, o longa estreou oficialmente nos cinemas brasileiros em 1 de fevereiro de 2024.

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A história se passa na Era Vitoriana e acompanha Bella Baxter (Emma Stone), trazida de volta à vida após seu cérebro ser substituído… O experimento é realizado pelo doutor Godwin Baxter (Willem Dafoe), um cientista brilhante, porém nada ortodoxo. Além de Stone e Dafoe, o elenco também conta com Mark Ruffalo, Jerrod Carmichael, Ramy Youssef, Christopher Abbott, Margaret Qualley, Kathryn Hunter, Suzy Bemba e Wayne Brett.

Divulgação: Searchlight Pictures

Desde o princípio, não há nenhuma dúvida de que a estranheza será o recurso que se fará mais presente em todas as camadas do longa, o que acaba criando um estilo consistente que atravessa desde toda a comunicação gráfica até as páginas do script. As referências expressionistas saltam aos ouvidos e aos olhos, com uma trilha sonora desafinada e agonizante e uma fotografia que busca valorizar a distorção das formas, brincando com planos angulares em diferentes tipos de lentes. Esses elementos combinados, contribuem para a construção minuciosa do clima camp/creepy perfeito para a direção de Lanthimos.

Continuando nas escolhas de fotografia, me agrada especialmente o uso do preto e branco em relação às cenas coloridas, que para além do visual, carregam em si um significado narrativo. Já a direção de arte opta por mergulhar em uma estética steampunk muito assertiva, que sem contar os cenários deslumbrantes, proporciona um verdadeiro desfile de moda ao dar a sua protagonista figurinos dignos de uma maison de alta-costura. Ainda sobre as caracterizações, seria impossível não mencionar o primoroso trabalho de maquiagem, que consegue viabilizar sequências surreais e personagens esquisitas de maneira a torná-las completamente críveis.

Divulgação / Searchlight Pictures

Dentre os incontáveis acertos, destaco como o ponto mais alto do filme a precisão do roteiro, que provoca uma reflexão cirúrgica sobre a hipocrisia de um moralismo descabido que envolve a sociedade. Uma das formas que o enredo afirma seu argumento, é com a racionalização do prazer – principalmente, o feminino – sob uma perspectiva de experimento científico, escolha essa que resulta em numerosas cenas de sexo que podem gerar certo incômodo, mas é justamente nesse incômodo que mora o ônus da prova. Isso tudo, conduzido ao longo de 141 minutos por um humor escrachado de sátira, que exclui a filosofia desse lugar comum de chatice, tornando-a mais leve. Ainda é mérito da escrita, a façanha de apresentar mais de 10 personagens e conseguir desenvolver todos eles ao ponto de torná-los minimamente interessantes.

Olhando com mais atenção ao elenco principal, Stone vive o que assumo ser o melhor papel de sua carreira até então. A principal ambição de Bella é conhecer o mundo e a si mesma, por isso vem muito carregada de ideais sobre evolução e aprendizagem, características essas que são visíveis fisicamente na performance de sua atriz. Já Dafoe, devora o seu papel e consegue, mesmo que com o rosto engessado de próteses, imprimir em tela brilhantemente o contraponto da frieza de um cientista com o amor de um pai. Por último, faço menção a atuação de Ruffalo, que mesmo no papel clássico de cafajeste, subverte as expectativas e é responsável por alguns dos momentos mais hilários da produção.

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O discurso aqui é principalmente sobre liberdade, ao ilustrar uma jornada de amadurecimento como ser humano, sob uma ótica amoral em relação ao entendimento das convenções sociais. No fim, “Pobres Criaturas” chama atenção e conquista pela sua personalidade intrigante e autêntica, misturando o futuro e o passado em um presente camuflado de críticas e piadas, resultando em um obra de sci-fi imersiva e catártica na sua totalidade.

Nota: 5/5

Trailer

Reprodução: YouTube / 20th Century Studios Brasil

POBRES CRIATURAS (“Poor Things”)
Estados Unidos, 2023
Direção: Yorgos Lanthimos
Elenco: Emma Stone, Willem Dafoe, Mark Ruffalo, Jerrod Carmichael, Ramy Youssef, Christopher Abbott, Margaret Qualley, Kathryn Hunter, Suzy Bemba e Wayne Brett
Distribuição: Searchlight Pictures

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