Se você olhar para o topo das paradas de streaming no Brasil hoje, não é difícil prever os temas que dominam as letras: carros importados, ostentação vazia e as apostas do “Tigrinho”. Mas e se alguém decidisse usar exatamente a mesma sonoridade que embala esses hits para driblar o sistema e fazer uma crítica de dentro para fora? Essa é a proposta de KAUNX (@kaunx), nome artístico de Kauan Mascarenhas Gaglione, que acaba de lançar seu single de estreia, “KUNG-FU”.
Cria da Zona Leste de São Paulo e estudante de Relações Públicas, o cantor de 22 anos chega com uma visão mercadológica apurada e uma estética que promete preencher uma lacuna no pop urbano brasileiro. Mas antes de realizar um lançamento milimetricamente pensado, a relação de KAUNX com a música começou de forma genuína.

“Eu pegava type beat do YouTube e rimava em cima”, relembra o artista, ao mostrar que o flerte com o rap e o trap já era a base de sua construção artística.
Quando decidiu que era hora de dar um passo profissional, o conceito do lead-single já estava cravado em sua mente. “Eu sabia que minha primeira música se chamaria ‘Kung-Fu’, só precisava tirar do papel. Achava esse nome fod@”, revela.
A crítica ao sistema
O que torna “KUNG-FU” uma estreia fora da curva não é apenas a mistura de gêneros — que passeia pelo funk, trap e R&B —, mas o manifesto por trás da letra. Incomodado com a saturação narrativa no mercado musical, KAUNX transformou uma previsão irônica em música.
“Eu falava para uma amiga minha que a próxima música lançada que parasse no topo do Spotify iria ser sobre Tigrinho e ostentação, e realmente era isso. Então decidi fazer uma crítica com isso”, conta.

Para que a ironia funcionasse, a faixa precisava soar como um hit. E é aí que entra a colaboração com o produtor Malharo (@malharooficial). Conhecido nas pistas e plataformas, o produtor foi a peça-chave para envelopar o conceito de KAUNX.
“Eu já conhecia o Malharo e tínhamos amigos em comum. Eu já tinha passado por outras experiências não muito legais com produtores, e para esse projeto queria alguém que mandasse bem, e pensei no Malharo”, explica o cantor sobre a escolha da parceria.
Estética e direção
Para acompanhar a ousadia sonora, o tratamento visual de “KUNG-FU” não poderia ficar para trás. A direção do clipe é assinada por Gabi Lisboa (@gabiliisboa), mente criativa que recentemente colaborou com Jão em sua aguardada nova era, Memórias Póstumas, no clipe de “Catedral”.

Sob o comando de Lisboa, o clipe traduz elementos asiáticos e a atmosfera neon de Tóquio somados à estética crua das periferias de São Paulo, criando uma harmonia visual impressionante. Em um movimento que atesta a ambição do projeto, a produção contou com uma parceria oficial com a Apple: o videoclipe foi inteiramente gravado utilizando a tecnologia da marca, carregando o cobiçado selo #ShotOniPhone.
Na tela, as artes marciais dividem espaço com os encontros noturnos em postos de gasolina da Zona Leste, entregando uma narrativa futurista que foge dos estereótipos óbvios e remete, inclusive, à estética de rua refinada vista nos aclamados clipes do trapper Veigh.

O lançamento marca o início oficial do que KAUNX batizou de Era “Marfim”. Focada em um mood uptempo, incisivo e banhado em tons pastéis — evocando referências de ícones pop globais —, o artista deixa claro que não veio para ser apenas mais um no algoritmo. KAUNX quer ditar as próprias regras do jogo. E, pelo visto, ele já sabe exatamente como golpear.

