O Costume Institute do Metropolitan Museum of Art e a Vogue anunciaram na última semana, o tema da exposição que vai comandar o Met Gala de 2027: “John Galliano: Horizons”, uma retrospectiva dedicada à carreira do estilista britânico. O anúncio, feito em 31 de julho, coloca Galliano em um grupo muito seleto — ele será apenas o terceiro estilista vivo a ter seu trabalho celebrado dessa forma pelo Met, depois de Yves Saint Laurent, em 1983, e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, em 2017.
Trajetória de décadas
A mostra vai percorrer mais de quarenta anos de carreira, começando pelo desfile de formatura de Galliano na Central Saint Martins, em 1984, e passando pelas passagens marcantes que consolidaram seu nome na moda: a criação artística na Givenchy, os quinze anos à frente da Dior — período em que assinou peças hoje icônicas, como a bolsa Saddle — e, mais recentemente, sua fase na Maison Margiela, que teve um dos pontos altos no desfile Artisanal de alta-costura da primavera de 2024, aquele que viralizou pelas maquiagens de porcelana e silhuetas extremamente cinturadas.

Segundo o curador-chefe do Costume Institute, Andrew Bolton, cada coleção de Galliano nasce como uma jornada entre elementos separados por tempo, lugar ou meio — e a exposição “Horizons” propõe justamente pensar a moda como uma forma de cartografia, mapeando não territórios, mas afinidades e transformações. A mostra será dividida em três “movimentos”: Bearings, Horizons e Atlas of Transformation.
Uma escolha com controvérsias
O anúncio já nasceu cercado de controvérsia. Em 2011, Galliano foi flagrado em vídeo fazendo comentários antissemitas em um bar de Paris, o que resultou em sua demissão da Dior e de sua própria grife, além de uma condenação por crime de ódio na Justiça francesa. Na época, ele alegou não se lembrar do episódio, atribuindo o comportamento a uma tripla dependência de remédios para dormir, Valium e álcool, e afirmou estar em tratamento.
Anna Wintour, diretora editorial global da Vogue e uma das grandes apoiadoras da escolha, defendeu que não existe hoje um nome mais merecedor de uma exposição dessa escala, destacando que o trabalho de Galliano combina erudição, criatividade e contrastes entre luz e escuridão ao longo de décadas. Segundo o New York Times, Wintour e Bolton chegaram a se reunir com líderes judaicos e rabinos nos meses que antecederam o anúncio para discutir a decisão — e a Liga Antidifamação (ADL) declarou ao jornal acreditar que Galliano trabalhou genuinamente as questões que o levaram àquele episódio.

Ainda assim, a decisão do Met de “perdoar” publicamente a trajetória do estilista divide opiniões nas redes e na imprensa especializada, reacendendo o debate sobre até que ponto é possível separar a obra do artista de sua conduta pessoal.
Met Gala e o legado Galliano
Vale lembrar que, mesmo antes de virar tema oficial, o trabalho de Galliano já era presença constante no tapete do Met Gala: Rihanna usou um look inspirado no papa (e em uma coleção antiga da Dior assinada por ele) na edição “Heavenly Bodies”, em 2018, enquanto Kim Kardashian e Zendaya vestiram peças teatrais da era Margiela na edição “Sleeping Beauties: Reawakening Fashion”, em 2024.
Com a exposição marcada para abrir em 9 de maio de 2027, “John Galliano: Horizons” promete ser um dos Met Galas mais discutidos da década — não só pela moda em si, mas pelo que representa reabrir, de forma tão pública, a discussão sobre memória, responsabilização e redenção dentro da indústria.

