CRÍTICA | “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é o filme de origem que o personagem não teve em uma década.

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Quando se pensa em super-heróis, existe um grupo seleto de personagens que atingiram um patamar astronômico de popularidade, capazes de garantir um legado que atravessa gerações e transcende qualquer tipo de mídia. Sem dúvida alguma, o Homem-Aranha é um destes. Não há quem não conheça a história do jovem Peter Parker que, após ser picado por uma aranha radioativa, ganhou poderes aracnídeos e passou a lutar contra o crime na cidade de Nova York. Desde a sua primeira aparição no quadrinho Amazing Fantasy #15 em agosto de 1962, o Amigão da Vizinhança já protagonizou de tudo: desenhos animados, séries de TV, jogos de videogame e inúmeros filmes. 

Nos cinemas, Tobey Maguire (Homem-Aranha, 2002) estreou o personagem nas adaptações para as telonas, e uma década depois, passou o manto para Andrew Garfield (O Espetacular Homem-Aranha, 2012). Mas, em um mundo envolvido pela trama maior do Universo Cinematográfico Marvel, foi Tom Holland quem vestiu o uniforme e trouxe o cabeça de teia de volta para casa. Depois de se juntar aos Vingadores para derrotar Thanos e desbravar o Multiverso com suas outras variantes em sucessos absolutos de bilheteria, agora em 2026, o ator retorna ao papel que o levou ao estrelato em “Homem-Aranha: Um Novo Dia”. O quarto longa do herói é uma coprodução da Sony Pictures com a Marvel Studios e tem estreia no Brasil marcada para esta quarta-feira (29).

Quatro anos se passaram desde os eventos de Sem Volta Para Casa, e Peter Parker agora é um adulto vivendo completamente sozinho, após ter se apagado de maneira voluntária da vida e das memórias daqueles que ama. Combatendo o crime em uma Nova York que já não sabe mais o seu nome, ele se dedica em tempo integral a ser o Homem-Aranha e proteger a cidade. Mas enquanto se mantém ocupado com a função, o herói vive um evento traumático que desencadeia nele próprio uma surpreendente mutação física, ameaçando sua própria existência. Tudo isso, enquanto um estranho padrão de crimes dá origem a uma das ameaças mais poderosas que Parker já enfrentou: um invasor de mentes.

Além da volta de Tom Holland como Homem-Aranha, retornam para o projeto os atores Zendaya e Jacob Batalon, que interpretam respectivamente os amigos M.J. e Ned. Ainda somam ao elenco as estrelas Sadie Sink, Mark Ruffalo, Jon Bernthal, Tramell Tillman e Michael Mando.

Divulgação: Sony Pictures

O público já está mais do que familiarizado com esta versão do Homem-Aranha, afinal, já fazem dez anos desde a sua primeira aparição no MCU (Marvel Cinematic Universe), em Capitão América: Guerra Civil. No entanto, para muitos, a sua trilogia não fez jus à grandiosidade do personagem… A espera acabou: este é, sem dúvidas, o melhor filme do Homem-Aranha de Tom Holland!

A evolução discrepante em comparação às produções anteriores se justifica pela mudança na direção. Quem assume o volante desta vez é o estadunidense Destin Daniel Cretton (Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, 2021), já conhecido dos fãs da Marvel pelo seu trabalho exemplar com cenas de ação. O diretor faz jus à sua fama, dando vida a sequências de luta frenéticas e genuinamente eletrizantes que, aliadas a uma montagem cirúrgica, são capazes de grudar a audiência na ponta da poltrona e encher seus olhos com quadros que parecem saídos de uma página de gibi. 

O longa é feliz à medida que abraça suas origens quadrinescas, celebrando-as com orgulho na estética e na narrativa. Na parte estética, a direção de arte cria uniformes e personagens coloridos em meio a uma cidade cinza, mas que mesmo melancólica, tem a sua beleza quando vista do alto. No entanto, a dimensão épica do visual surge na fotografia, que recorta ângulos grandiosos e poses de batalha breguíssimas (no melhor sentido da palavra), criando imagens que têm verdadeiro potencial para morar no imaginário coletivo durante muito tempo.

Divulgação: Sony Pictures

Já no que toca à narrativa, vários rostos conhecidos deste universo aparecem para somar de algum modo à trama principal, emulando o mesmo sentimento de abrir uma revista em quadrinhos numa edição aleatória. O fan service, neste caso, funciona bem, dada a sua natureza prática. Apesar do número relativamente alto de participações, estas não são apelativas e de fato contribuem para a aventura, cada uma nas suas devidas proporções. Mas como nem só de cameos vive um roteiro, é importante destacar que o filme não se resume a isto.

Apesar do tom divertido e familiar intrínseco a todos os longas do Teioso, este é um enredo sobre solidão. Por mais anacrônica que a próxima afirmação possa soar, esta é estruturalmente uma história de origem. O público acompanhou, ao longo da última década, a jornada de amadurecimento desse Peter Parker até este ponto, em que, finalmente, é possível assisti-lo se tornar o mesmo Homem-Aranha que cativa multidões há mais de 60 anos. Porém, ser o Amigão da Vizinhança tem seu peso e seu preço, e é neste drama que pulsa o coração do filme. A dicotomia entre o homem e a aranha é a questão central de um protagonista que, além de já ter sido apagado da memória de todos aqueles que mais ama, está se apagando cada vez mais de si mesmo. Considerando o nosso histórico recente de retrocessos enquanto sociedade, o debate sobre ser quem se é ou reprimir a própria autenticidade é atual e de extrema importância, sobretudo quando abordado em um projeto de alcance massivo como esse.

ATENÇÃO! No próximo parágrafo da análise, falaremos brevemente sobre a misteriosa personagem de Sadie Sink e a sua importância para a história. Caso você queira manter a surpresa dos detalhes sobre a participação da atriz, avance a leitura para o parágrafo seguinte.

Divulgação: Sony Pictures

Este tema ecoa não só através dos conflitos internos de Parker, mas também pela personagem misteriosa de Sadie Sink, que interpreta brilhantemente, Jean Grey, a poderosa mutante que no futuro se juntará aos X-Men. Aqui, ela funciona como uma espécie de antagonista. Em uma explicação bem simplificada de todo o arco dramático, a telepata é motivada a agir graças à necessidade inventada pelo Estado de, com a máxima crueldade possível, estudar e reprimir o gene mutante. Mesmo que em determinados momentos alguns diálogos sejam expositivos demais e didáticos em excesso, os traumas de Jean causados por toda essa opressão externa, rivalizam perfeitamente com a vontade irracional de Peter inibir seus próprios poderes, agregando ainda mais valor ao conjunto da obra. A reflexão que fica é uma provocação feita pelo Doutor Banner ao jovem Parker: “Como você pode decidir quais partes da natureza são boas e quais são ruins?”

Divulgação: Sony Pictures

Deixando os spoilers de lado, considerando que esta é mais uma peça da grande história do Universo Marvel, o longa consegue deixar a audiência ansiosa pelo que virá a seguir, como já não conseguia há muito tempo, obtendo um mérito legítimo ao oferecer uma projeção animadora de futuro. Outro destaque é a atuação de Tom Holland que, a esta altura do campeonato, esbanja o seu domínio do papel, fluindo com excelência entre as nuances mais densas e as mais leves de um super-herói tão amigável quanto solitário. 

Por fim, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” joga luz sobre o melhor do cinema de heróis, propondo uma aventura carismática e consistente, construída por profissionais apaixonados e guiada por personagens profundos. Um verdadeiro acerto, como a Marvel não tinha há muito tempo.

Nota: 4.5/5

TRAILER

Reprodução: Sony Pictures

SPIDER-MAN: BRAND NEW DAY(“Homem-Aranha: Um Novo Dia”)
Estados Unidos, 2026
Direção: Destin Daniel Cretton
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Jacob Batalon, Sadie Sink
Distribuição: Sony Pictures

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