PACE estreia nas passarelas e transforma herança japonesa em moda contemporânea

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Quase dez anos depois de sua fundação, a PACE finalmente chegou à passarela. Mas a estreia da marca de Felipe e Juliana Matayoshi não teve o tom de uma celebração tardia. Pelo contrário: o desfile realizado em 2 de junho, na Praça das Artes, em São Paulo, transmitiu a sensação de que a marca esperou o momento certo para transformar em espetáculo aquilo que já vinha construindo silenciosamente há anos.  

A coleção de inverno 2026 partiu de elementos do kendô, arte marcial japonesa tradicional, para aprofundar uma conversa que sempre esteve presente no universo da PACE: a relação entre cultura japonesa, funcionalidade e moda contemporânea. Em vez de recorrer a uma leitura literal ou fantasiosa do Oriente, a marca preferiu trabalhar a referência de forma orgânica, incorporando estruturas, proporções e símbolos ao seu vocabulário já conhecido.  

O resultado apareceu em peças que equilibravam rigor e fluidez. Coletes inspirados no — armadura utilizada pelos praticantes de kendô — surgiram reinterpretados em construções urbanas, enquanto pregas que remetem ao hakama ganharam novas proporções em bermudas e calças. Chapéus estruturados, sobretudos de presença marcante e camisas alongadas reforçaram a dimensão arquitetônica dos looks.  

Mais interessante do que identificar as referências foi perceber como elas dialogavam com o DNA da marca. A alfaiataria, o utilitarismo e o streetwear, pilares da PACE desde seus primeiros anos, não foram abandonados em nome de uma narrativa conceitual. Pelo contrário: serviram como base para traduzir a inspiração cultural em roupas desejáveis e coerentes com seu público. O desfile demonstrou que a maturidade de uma marca não está necessariamente em mudar de direção, mas em aprofundar sua própria linguagem.

Entre os destaques da coleção, o trabalho com couro e denim chamou atenção pela qualidade das construções. Jaquetas bomber, coletes estruturados e peças de aparência utilitária ganharam sofisticação por meio dos materiais e acabamentos, enquanto a cartela predominantemente sóbria reforçou a sensação de permanência e atemporalidade.  

Outro marco importante da noite foi a apresentação da primeira linha feminina da PACE. Em vez de criar uma ruptura estética entre os universos masculino e feminino, a marca optou pela continuidade. Saias transparentes combinadas a coletes de couro, tops texturizados e silhuetas mais leves mantiveram os códigos já estabelecidos pela etiqueta, sugerindo que a expansão para o feminino nasce menos de uma estratégia comercial e mais de uma evolução natural de sua comunidade. Segundo a ELLE Brasil, atualmente, cerca de 30% das vendas da marca já são destinadas a mulheres.  

Mas talvez o aspecto mais relevante do desfile esteja além das roupas. Como descendentes de japoneses, Felipe e Juliana Matayoshi utilizaram a coleção para trazer visibilidade a uma experiência frequentemente pouco representada na moda brasileira. Ao colocar referências asiáticas no centro da narrativa sem recorrer a estereótipos, a PACE propôs uma reflexão sobre pertencimento, memória e identidade cultural em um país marcado pela diversidade de origens.  

Em um momento em que muitas marcas apostam em conceitos grandiosos para justificar sua presença nas passarelas, a estreia da PACE chamou atenção justamente pela clareza. Não houve excesso de informação nem uma tentativa de reinventar a moda brasileira. Houve, sobretudo, a consolidação de uma identidade construída ao longo dos anos. E talvez seja exatamente isso que torne o desfile tão significativo: ele não apresentou uma nova PACE. Apenas mostrou, para um público maior, quem a marca já era.  

Autor

  • Murilo Bezerra

    Bacharelando em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e Repórter do SETEPOP.

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