‘Backrooms’ transforma o terror da internet em uma experiência visual intrigante — mas tropeça no próprio mistério

·

,

A internet sempre foi um terreno fértil para o terror. Das creepypastas aos vídeos em found footage no YouTube, poucos conceitos recentes conseguiram capturar tanto a imaginação coletiva quanto as famosas backrooms: corredores infinitos, salas amarelas iluminadas por luz fluorescente e a sensação constante de estar preso em uma realidade errada. Agora, a A24 leva esse universo para os cinemas amanhã (28), em Backrooms: um não-lugar, adaptação dirigida por Kane Parsons, jovem cineasta de apenas 20 anos que ficou conhecido pelos curtas virais publicados em seu canal Kane Pixels. E talvez seja justamente esse contexto que torne o filme tão interessante de analisar.

Estrelado por Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve, Backrooms acompanha personagens que acabam envolvidos em uma dimensão paralela estranha e labiríntica, onde espaço, tempo e realidade parecem funcionar de maneiras diferentes. O filme tenta transformar o conceito das backrooms em algo maior do que apenas uma lenda da internet: aqui, elas funcionam como uma espécie de reflexo psicológico, um lugar que materializa medos, fracassos e até versões distorcidas de nós mesmos. Essa é, sem dúvidas, a parte mais interessante do longa.

Renate Reinsve interpreta Mary, psicóloga do personagem de Chiwetel Ejiofor [Imagem: Divulgação]

Visualmente, Backrooms impressiona bastante. A fotografia e a construção dos cenários conseguem transmitir exatamente a sensação desconfortável que tornou o fenômeno tão popular online. A direção aposta em corredores vazios, enquadramentos sufocantes e luzes artificiais que criam um clima constante de paranoia. É um filme que entende como trabalhar atmosfera.  

A A24 também continua consolidando um catálogo de terror cada vez mais autoral e experimental, e Backrooms definitivamente entra nesse portfólio como uma proposta ousada. Mesmo quando o roteiro falha, a experiência visual continua hipnotizante. E aqui está o maior problema do filme: o roteiro.

A premissa é extremamente forte, mas do meio para o final a narrativa começa a se perder. O longa levanta muitas perguntas sobre o que realmente são as Backrooms — realidades paralelas? dimensões quebradas? projeções psicológicas? — mas nem sempre consegue organizar essas ideias de forma clara. Existe uma tentativa de explicar o funcionamento daquele universo, porém o filme parece querer manter tudo misterioso ao mesmo tempo, o que acaba deixando algumas decisões confusas.

O final em aberto também pode dividir opiniões. Em vez de entregar uma conclusão mais concreta para os personagens, “Backrooms” opta por ampliar ainda mais o mistério. Para alguns, isso pode funcionar como parte da proposta; para outros, deixa a sensação de que faltou desenvolvimento narrativo.

Ainda assim, é difícil ignorar o talento de Kane Parsons.  Existe algo muito promissor em ver um diretor tão jovem comandando um projeto dessa escala. O fato de alguém que começou produzindo curtas independentes no YouTube conseguir transformar sua própria criação em um longa da A24 já torna “Backrooms” um caso fascinante dentro do cinema atual.

Por isso, talvez não seja justo analisar o filme como uma produção convencional de terror. Existe um frescor criativo aqui, uma tentativa genuína de traduzir a linguagem da internet para o cinema. Nem tudo funciona, mas quando funciona, o resultado é realmente perturbador e original.

No fim, “Backrooms” é um filme mais interessante do que perfeito. Ele acerta muito na atmosfera e na construção visual, mas tropeça em um roteiro que parece não conseguir sustentar todas as ideias que apresenta. Ainda assim, deixa claro que Kane Parsons é um nome para acompanhar de perto nos próximos anos.

E talvez exista espaço para uma continuação — não porque o filme precise necessariamente dela, mas porque ainda há muito desse universo que merece ser explorado.

NOTA: 4/5

*[Imagem: Divulgação]

Autor

  • Murilo Bezerra

    Bacharelando em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e Repórter do SETEPOP.

Descubra mais sobre SETEPOP

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo