CRÍTICA | “O Diabo Veste Prada 2” respeita o seu passado, mas só se compromete com o presente.

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Desde o surgimento da moda como indústria, as revistas desempenharam um papel central nesta equação de consumo, tornando-se uma das principais responsáveis por gerar desejo nas pessoas e ditar as tendências do mundo fashion. Dentre os mais variados títulos, um conseguiu atingir outro patamar no imaginário coletivo: a Vogue. Com uma reputação lapidada ao longo de 134 anos, a revista é referência de prestígio até hoje, mas foi a britânica Anna Wintour a responsável por revitalizar a publicação nos moldes atuais, preservando a sua relevância mesmo em meio a novas formas de comunicação.

Conhecida por sua personalidade forte — pra dizer o mínimo —, o ícone máximo da moda mundial conseguiu cativar a ira de uma de suas antigas assistentes, ao ponto de fazê-la publicar O Diabo Veste Prada, um romance supostamente ficcional que descrevia, em detalhes, os polêmicos bastidores de uma famosa revista de moda. A correlação era evidente, e o burburinho garantiu o sucesso, não demorando muito para que o livro chegasse às telas de cinema e se tornasse um dos maiores filmes de 2006. Agora, em 2026, vinte anos após o longa original ter se consolidado como um clássico moderno, o norte-americano David Frankel retorna para dirigir O Diabo Veste Prada 2. A aguardada sequência que marca o reencontro do elenco original chegou oficialmente aos cinemas brasileiros na quinta-feira, 30 de abril.

Divulgação: 20th Century Studios

Duas décadas após Andy Sachs deixar o cargo de assistente número um da implacável Miranda Priestly, a jornalista recebe uma proposta irrecusável para retornar à revista Runway. Em meio ao colapso do jornalismo tradicional, Miranda precisa da ajuda de sua antiga assistente para gerir uma crise de imagem e revitalizar a publicação no ambiente digital. Entre os novos obstáculos, está a necessidade de se curvar aos anunciantes, mesmo que isso signifique comprometer a qualidade editorial. As atrizes Anne Hathaway (Interstellar, 2014) e Meryl Streep (Mamma Mia!, 2008) reprisam seus lendários papéis como Andy e Miranda. Retornam também Emily Blunt (Um Lugar Silencioso, 2018) e Stanley Tucci (Conclave, 2024), além das adições de Simone Ashley (Bridgerton, 2020–) e Lucy Liu (Kill Bill: Vol. 1, 2003) ao elenco de apoio.

Divulgação: 20th Century Studios

De uns tempos pra cá, muito se fala sobre a crise criativa que tem assolado Hollywood, com idealizadores recorrendo cada vez mais ao fator nostalgia para tentar vender ingressos. São inúmeros os exemplos atuais de péssimas sequências feitas de qualquer maneira… felizmente, esse não é o caso! Apesar de ter uma estrutura narrativa similar ao seu antecessor, O Diabo Veste Prada 2 não se permite só viver de lembranças. A direção dá aos fãs todas as referências que querem ver: as frases que viraram bordões, recria algumas cenas marcantes, traz de volta figurinos memoráveis… mas faz tudo isso sem sacrificar, em momento algum, a sua trama atual. Os fanservices de 2006 são como um aceno ao público fiel, mas, para além disso, aqui são usados de forma pontual e estratégica, servindo com inteligência, em primeiro lugar, à história que escolheram contar em 2026.  

O que dá à obra todo o seu frescor é justamente os seus dois pés calcados na realidade do mundo de hoje. Proporcionar ao afiado senso de humor irônico intrínseco a esta franquia a chance de fazer uma série de piadas ácidas a respeito da cultura do cancelamento, subcelebridades, inteligência artificial, entre mais outros assuntos que a pós-modernidade decidiu nos oferecer, arranca gargalhadas com facilidade e concretiza uma atualização perfeita. Ao que toca à parte estética, o design de produção garante que o conjunto seja grandioso, dos figurinos até as locações; os visuais transbordam a opulência de um grande filme de moda. A cereja do bolo chega com a trilha sonora pop, que embala toda a montagem com músicas que não saem da cabeça. Dentre as faixas, destaco a sedutora “Shape Of a Woman”, criada por Lady Gaga especialmente para o longa. 

Voltando a falar sobre narrativa, o enredo principal ganha forma e valor na medida em que busca pensar sobre os impactos diretos dos avanços tecnológicos desenfreados no mercado editorial, tirando o espectador da zona de conforto e obrigando-o a refletir sobre o que se entende como “progresso”. Dentre um dos múltiplos desdobramentos expostos na produção, o declínio do material impresso, que impõe aos redatores da Runway a necessidade de se preocuparem mais com quantos cliques têm suas matérias do que se elas têm algo de fato importante a dizer. O problema é que, à medida que novas questões vão surgindo, as que já tinham sido levantadas acabam ficando soltas pelo caminho, sem perspectiva de um desenvolvimento mais profundo. Apesar disso, o roteiro é cirúrgico ao tornar objeto central da análise a figura que está na linha de frente, recebendo todos os tiros: a chefe. Se o primeiro era um filme sobre a jornada de Andy Sachs, este é um filme sobre a jornada de Miranda Priestly, mesmo que contada pela ótica de Sachs. 

Divulgação: 20th Century Studios

Miranda, que outrora fora temida por toda a indústria da moda justamente pelo poder de influência centralizado na sua revista, agora precisava abaixar a cabeça para as marcas de luxo que a prestassem o favor de anunciar numa revista impressa que mal consegue vender seus exemplares. A construção da personagem de Meryl Streep é, de longe, o ponto mais alto do filme. A atriz imprime desespero no olhar, enquanto o restante do seu rosto comunica algo completamente diferente. Streep mantém Miranda imponente mesmo na fragilidade; em nenhum momento a megera perde a pompa. A teia de complexidade envolvendo todas essas camadas lembra a todos não só que a Sra. Priestly é uma das personagens mais icônicas da cultura pop, mas que estamos assistindo a um show da atriz mais indicada da história do Oscar… As 21 nomeações não foram à toa. 

Em contraponto, temos a maravilhosa Anne Hathaway trazendo uma Andy que, apesar dos anos de estrada, não perdeu o brilho no olhar. Desconsiderando a presença de um arco romântico, que soa mais como obrigação do que escolha dramática, a protagonista de Hathaway ainda é cativante e funciona bem como o espelho do público. Nostálgica e saudosa em voltar para os corredores da Runway, Sachs ampara a audiência emocionalmente como quem diz que apesar de tudo ser diferente, algumas coisas nunca mudam. 

No fim, mesmo com certa dificuldade em aprofundar determinados temas, O Diabo Veste Prada 2 é honesto e coeso. Esta atualização serve aos fãs um verdadeiro banquete: uma divertida reentrada nesse universo fashion, mas que, acima de tudo, se mantém fiel à sua própria identidade. 

Nota: 4/5

TRAILER

Reprodução: 20th Century Studios

THE DEVIL WEARS PRADA 2 (“O Diabo Veste Prada 2”)
Estados Unidos, 2026
Direção: David Frankel
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci
Distribuição: 20th Century Studios

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