CRÍTICA | “Avatar: Fogo e Cinzas”: Poucas chamas para muita água.

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O cinema tem como princípio básico sequências de imagens que criam a ilusão de movimento, sendo assim, é possível afirmar que a sétima arte, em essência, é uma experiência visual. A técnica que, no final do século XIX, surgiu limitada a registros mudos em preto e branco de situações corriqueiras do dia a dia, graças à radical evolução tecnológica, hoje é capaz de materializar com uma riqueza impressionante de detalhes os cenários mais fantasiosos e coloridos que a mente humana for capaz de imaginar.

Para que pudesse dar vida a um de seus projetos mais ambiciosos, o canadense James Cameron (Titanic, 1997) desenvolveu um equipamento capaz de gravar a profundidade de campo em três dimensões, se provando um verdadeiro entusiasta da tecnologia… é daí que nasce o fenômeno Avatar (2009). Um dos principais responsáveis por popularizar os cinemas 3D na época, o filme que narra a luta dos Na’vi contra a colonização humana se tornou um sucesso absoluto, mantendo até hoje o título de maior bilheteria da história, com 2,9 bilhões de dólares arrecadados ao redor do mundo. 14 anos e uma venda de estúdio depois, o diretor convida o público a mergulhar novamente no monumental mundo de Pandora com a chegada de Avatar: O Caminho da Água (2023). Depois de conhecer a floresta e o oceano, agora em 2025, é chegada a hora de incendiar tudo em Avatar: Fogo e Cinzas. O terceiro capítulo da saga dos Sully fez sua estreia oficial no Brasil na última quinta-feira, 18 de dezembro.

Divulgação: 20th Century Studios

Logo após a devastadora guerra contra a RDA e ainda digerindo a perda de seu filho mais velho, a família Sully se vê quebrada. Antes mesmo de conseguir lidar com o seu luto, o casal Jake Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldaña) são obrigados a enfrentar uma ameaça desconhecida: o Povo das Cinzas, uma agressiva tribo Na’vi conhecida por sua violência extrema e sede de poder. Liderado pela implacável Varang (Oona Chaplin), o misterioso clã é composto por guerreiros capazes de controlar o fogo e cuja lealdade pode desequilibrar o destino do planeta. Em paralelo, o Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e os seres humanos continuam avançando cada vez mais com suas tentativas de colonizar Pandora por completo, tornando iminente um novo confronto entre os nativos e o povo do ar. 

Divulgação: 20th Century Studios

Desde o início da franquia, é fato que boa parte do público lembra dela principalmente pela magnitude de seu espetáculo visual. Falar sobre a beleza do mundo de Pandora é chover no molhado, mas não dedicar um parágrafo deste texto para enaltecê-la seria, além de injusto, desonesto. O CGI de primeira linha deve garantir o seu já tradicional Oscar de Melhores Efeitos Visuais, visto que Cameron, mais uma vez, concebe em tela uma paisagem afrodisíaca indescritível, povoada não só pelos Na’vi, mas por uma fauna de criaturas sublimes e cativantes, capazes de emocionar a audiência mesmo se comunicando só por meio de grunhidos. A direção de arte é alavancada pela fotografia excepcional, culminando em conjunto, na criação de quadros que brilham os olhos, preenchidos por interações extremamente naturais em um ambiente criado artificialmente por computadores. 

O nível de realismo é tão significativo que convencer o cérebro de que seres azuis com três metros de altura não existem se torna uma tarefa difícil, em especial para aqueles que assistem em uma sessão 3D. O recurso, que vem caindo em desuso ao longo dos anos, neste caso é pensado de uma maneira artística desde a concepção do projeto, para efetivamente potencializar a imersão do espectador neste universo… e assim é feito! Do fascínio pela natureza contemplativa às grandiosas cenas de ação, assistir a esta produção em uma sala de cinema apropriada proporciona uma sensação única e agrega positivamente na percepção do todo.

No entanto, o entusiasmo talvez acabe resumido à estética. A narrativa começa promissora, seguindo com seriedade a maneira como cada um dos Sully enfrenta o seu luto, pondo em risco a unidade familiar, mas antes que esses sentimentos ambíguos possam ser digeridos, um novo inimigo surge: Varang e o Povo das Cinzas. A introdução da vilã é, de longe, o maior acerto criativo desta sequência, porque além da personalidade interessante e das misteriosas habilidades pirotécnicas verdadeiramente hipnotizantes, a antagonista tira a trama do lugar cômodo da mesmice Na’vi VS Humanos, dando mais nuances ao conflito.

Divulgação: 20th Century Studios

Entretanto, da metade para o final, o roteiro abre mão da sua individualidade e se distancia das novidades apresentadas neste terceiro longa, optando por repetir a conclusão do segundo filme, que a seu modo, já era uma repetição do primeiro; o resultado: os domadores de fogo escanteados sem qualquer explicação plausível, para dar espaço aos seres humanos e a uma batalha final aquática quase idêntica à de seu antecessor, tanto em função dramática quanto em aparência, porém com bem menos impacto.

Não bastando a dissonância entre um marketing estruturado quase com exclusividade no Povo das Cinzas e a sua real participação no enredo, as falsas promessas continuam. Nas palavras do diretor James Cameron, “Fogo e Cinzas é o encerramento de uma saga”, mas na prática, nada de fato foi encerrado: as mudanças entre o começo e o final são pífias, e o arco de evolução dos personagens poderia ser resolvido com tranquilidade em bem menos de três horas. Fica explícita a falta de coragem para tomar atitudes definitivas que tenham algum peso genuíno na jornada.

Em suma, o filme tem uma boa história e uma aventura empolgante, mas que já foram usadas duas outras vezes no mesmo contexto. O tecnicismo megalomaníaco de James Cameron honra a grandiosidade das salas de cinema e encanta com toda a sua beleza aqueles que se sentam nas poltronas, revelando imagens autênticas que só ele é capaz de criar, mas que aqui, sustentam-se somente no deslumbre plástico. No fim, Avatar: Fogo e Cinzas é, para o bem e para o mal, mais do mesmo.

Nota: 3/5

TRAILER

Reprodução: 20th Century Studios

AVATAR: FIRE AND ASH (“Avatar: Fogo e Cinzas”)
Estados Unidos, 2025
Direção: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña
Distribuição: 20th Century Studios

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