CRÍTICA | “Superman”: uma jornada atual na era da nostalgia.

·

,

Bem antes dos bilhões de dólares arrecadados em esquemas piramidais de universos cinematográficos compartilhados, já era impossível falar em super-heróis sem falar em Superman. Pioneiro responsável por popularizar o gênero entre os leitores de gibis e, posteriormente, esculpir o padrão para os filmes de heróis, a história do Último Filho de Krypton sobreviveu ao teste do tempo e atravessou gerações inteiras em diferentes formatos. Prova disso é que, mesmo com os altos e baixos da indústria de quadrinhos, ao longo de quase nove décadas de existência, a revista Action Comics (título em que o personagem apareceu pela primeira vez em 1938) nunca deixou de ser publicada.

Com a democratização da televisão e o progresso do cinema, não demorou para que o Homem de Aço voasse das páginas das HQs para as telas: séries de TV, filmes e animações, sozinho ou em grupo, o kryptoniano sempre se fez presente no audiovisual. No cinema, as adaptações vão da unanimidade otimista de Richard Donner (Superman, 1978) à polêmica e melancólica versão de Zack Snyder (O Homem de Aço, 2013). Agora, em 2025, o diretor James Gunn (Guardiões da Galáxia, 2014) devolve a cueca por cima da calça e dá vida a Superman, longa que marca oficialmente o início da primeira fase do DCU nas telonas, intitulada por Gunn — que também é chefe criativo do estúdio — como “Deuses e Monstros”. A mais nova produção da DC Studios chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 10 de julho.

Divulgação: Warner Bros. Pictures

Três anos após Kal-El, um alienígena refugiado do extinto planeta Krypton, surgir em Metrópolis decidido a ajudar a humanidade sob o nome de Superman, o herói resolve intervir em um conflito internacional, encerrando uma guerra antes mesmo que ela comece. Apesar das boas intenções, seu gesto gera polêmica, e após um plano orquestrado pelo egocêntrico bilionário Lex Luthor, o Homem do Amanhã se vê encurralado pela opinião pública. Em paralelo, sob o alter ego do atrapalhado jornalista Clark Kent, o kryptoniano vive um romance secreto com a brilhante colega de trabalho Lois Lane, que precisa superar os desafios de se relacionar com um super-herói — em todos os sentidos. Quem assume pela primeira vez a capa do Superman é o ator David Corenswet (Pearl, 2022), enquanto co-estrelam na pele do vilão Lex Luthor e da repórter Lois Lane, respectivamente, o carismático Nicholas Hoult (Nosferatu, 2024) e a vencedora do Emmy Rachel Brosnahan (A Maravilhosa Sra. Maisel, 2017–2023).

Divulgação: Warner Bros. Pictures

Depois do festival de promessas impulsionado pela antiga gestão, somado aos consecutivos fracassos comerciais do antigo DCEU, um reinício se fazia inevitável. Quando James Gunn, veterano em fazer figuras desconhecidas caírem nas graças do grande público, assumiu a responsabilidade de arrumar toda a bagunça da casa, rapidamente conquistou os olhares necessários para o renascimento do universo DC nos cinemas. Este primeiro passo foi dado com o pé direito, visto que Gunn trouxe luz a um projeto que transborda da tela a sua identidade como diretor, mas sem deixar que sua assinatura prevaleça sobre a essência original do personagem, pelo contrário, resgatando e atualizando com muito punk rock a esperança e o senso de humanidade inerentes ao protagonista.

Ao que toca à parte estética, o longa assume sem qualquer timidez as suas origens quadrinescas e ostenta com alegria sua multiplicidade de criaturas e poderes, desfilados em uniformes coloridos e cenários fantasiosos. Apesar de o surrealismo aqui ser mais do que bem-vindo, os efeitos especiais e a fotografia têm os seus momentos, ora causando certa estranheza pela artificialidade, ora imprimindo quadros gloriosos que ficarão imortalizados para sempre na mente dos fãs. Com algumas interrupções pontuais de telas pretas que quebram sem necessidade o ritmo do filme, a qualidade da montagem também oscila, mas, uma vez superado este fato, as sequências, tanto dramáticas como as de ação, embaladas ainda pela trilha sonora nostálgica, são genuinamente interessantes, envolvendo e comovendo sem dificuldade aqueles que estiverem dispostos.

No entanto, se há algo realmente sólido nesta versão, é a narrativa. Optando por fazer concessões a fim de contextualizar um enredo que, sabiamente, já começa andando, o roteiro não perde tempo explicando mais do que o necessário e, mesmo sendo o pontapé inicial de uma saga, não se deixa deslumbrar por um potencial futuro, mantendo os pés sempre fincados no presente… presente este, mais atual do que nunca! Aqui, acompanhamos uma arquitrama clássica, mas com uma aventura recheada de personalidade, cujo mote principal consiste em uma guerra entre a Borávia e o Jarhanpur, duas nações fictícias que fazem clara alusão a Israel e Palestina; Gunn não tem medo de ser político e teme menos ainda se comprometer, um feito de fato admirável considerando a posição desta produção na indústria cultural.

Divulgação: Warner Bros. Pictures

Como mencionado no parágrafo anterior, a história já começa andando, o que acaba resultando em um número de coadjuvantes acima do esperado, mas, surpreendentemente, todos os personagens da chamada Gangue da Justiça têm seu espaço para brilhar, com destaque especial para o Sr. Incrível de Edi Gathegi (Crepúsculo, 2008), que protagoniza a cena de ação mais criativa do filme. Mas quem rouba a cena do elenco de apoio nem de carne e osso é feito: o supercãozinho Krypto se junta à coleção de animais em CGI de James Gunn e serve à trama com doses certas de fofura e alívio cômico.

Porém, de longe, as verdadeiras joias da coroa estão nas escolhas do trio principal. A começar por Corenswet, que esbanja carisma e é primoroso na construção de um homem de aço vulnerável, que sabe que é imperfeito, e por isso, enxerga sempre o melhor nas pessoas — e claro, nos monstros gigantes. A performance do ator ganha novas camadas quando somada à de Brosnahan, formando um casal de dar calor, com uma química hipnótica vinda de outro planeta. Do outro lado da equação, Hoult reitera seu brilhantismo e desaparece na pele de Lex Luthor, transparecendo em cada microexpressão a raiva e a inveja quase patológicas que o antagonista sente do azulão.

Por fim, essa é uma daquelas histórias capazes de nos fazer olhar para dentro e buscar o que há de mais bonito. Com muita paixão, identidade, bom humor e, principalmente, humanidade, Superman reverencia o legado do personagem e acena com sobriedade para o horizonte promissor do DCU, mas sem abrir mão de viver com muita intensidade o que acontece agora. Felizmente, o sol voltou a brilhar para o Superman.

Nota: 4.5/5

TRAILER

Reprodução: Warner Bros. Pictures

SUPERMAN
Estados Unidos, 2025
Direção: James Gunn
Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult
Distribuição: DC Studios / Warner Bros. Pictures

Autor

Descubra mais sobre SETEPOP

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo