Em um mundo sem capas e homens que voam, um salvador alienígena, e por consequência imigrante, pode parecer o que os apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, chamam de “Too Woke” ou “Super Lacração”, como colocado pelo jornal norte-americano Fox News após James Gunn, co-CEO da DC Studios e diretor de “Superman”, ressaltar o óbvio sobre um personagem mundialmente conhecido por ser um super-herói de um planeta extraterrestre fictício. Nesse caso, o filme estrelado por David Corenswet como Superman/Clark Kent, Rachel Brosnahan como Lois Lane e Nicholas Hoult como Lex Luthor não só aborda a questão do último filho de Krypton ser um imigrante ilegal, mas também propõe que o roteiro questione, mesmo que de forma rasa, questões geopolíticas, ao usar países ficcionais como alusão ao genocídio na Faixa de Gaza causado por Israel com apoio financeiro dos Estados Unidos.
Apesar das várias adaptações para o cinema e televisão, a última versão do Superman nos cinemas que conquistou o público geral com unanimidade, ou o mais próximo disso, foi em 1978 com “Superman: O Filme”, estrelado brilhantemente por Christopher Reeve, sob a direção esperançosa de Richard Donner, o que o consagrou como o primeiro filme longa-metragem de um super-herói da história do cinema. Entretanto, para a Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010, como eu), o Superman das telonas foi o de Zack Snyder em sua tentativa falha de universo compartilhado que iniciou com “O Homem de Aço” em 2013, com Henry Cavill interpretando uma versão sombria e sem cor do personagem, o que muitos consideram uma descaracterização de sua essência.

Dessa vez, sob a tutela de um dos diretores mais importantes para o gênero “filmes de quadrinhos”, James Gunn (trilogia “Guardiões da Galáxia” e “O Esquadrão Suicida”) tem a missão não só de apresentar um novo Superman que conquiste o público que é fã do personagem, assim como aqueles que deixaram de ser com a visão instaurada por Zack Snyder, mas também de fazer com que o público geral crie interesse no DCU, novo universo compartilhado da DC que deve seguir os passos de Kevin Feige na construção do universo Marvel. Nesse sentido, David Corenswet interpreta um Superman “humano”, com vontade de servir o planeta Terra na sua totalidade, desde esquilos até os próprios humanos, pois esse Superman, por mais que ainda seja extraterrestre, reconhece-se pela sua humanidade ao errar múltiplas vezes durante sua jornada, mas sempre tentando salvar o mundo. Por mais que Clark Kent apareça em momentos pontuais do filme, Corenswet convence como o personagem e apresenta uma face vulnerável que não se via há muito tempo permitindo que o público consiga se identificar com Kal-El, ainda que se trate do ser mais poderoso que habita a Terra. A fragilidade do personagem consiste nos relacionamentos de Superman com seus pais biológicos Jor-El e Lara-El; Jonathan e Martha, os da Terra, bem como Lois Lane e o terrivelmente brilhante cãozinho Krypto, afinal, não é novidade a capacidade de James Gunn de fazer o público se importar com animais de computação gráfica.

Além disso, os co-protagonistas Lois Lane (Rachel Brosnahan) e Lex Luthor (Nicholas Hoult) também são um grande destaque. Brosnahan não só é o carisma em pessoa como tem uma química inenarrável com Corenswet enquanto Superman e Clark Kent, sua Lois Lane é usada de forma importantíssima para a narrativa enquanto jornalista acompanhada pelo ótimo Jimmy Olsen de Skyler Gisondo e seus colegas do Planeta Diário. O vilão Lex Luthor também não fica atrás com a interpretação de Nicholas Hoult, que é assumidamente consumida pela inveja que sente do Superman e sua frieza com relação ao resto da humanidade apresentando ameaças como o Martelo da Boravia e outros vilões como a excelente Engenheira (Maria Gabriela de Faría), que poderia ter sido melhor aproveitada e o Ultraman.

Durante o longa, percebe-se a necessidade de James Gunn de afirmar que super-heróis existem há muito tempo nesse novo universo para sua consolidação com a também apresentação da Gangue da Justiça, formada pela Mulher Gavião/Kendra Saunders (Isabela Merced), Senhor Incrível (Edi Gathegi) e Lanterna Verde/Guy Gardner (Nathan Fillion). No entanto, apenas o Senhor Incrível de Edi Gathegi se destaca como personagem no decorrer da narrativa protagonizando uma grande cena de ação com Rachel Brosnahan, marcada por uma música pop na trilha sonora, assinatura escancarada do diretor e roteirista.

Diante disso, com uma superlotação de personagens e 2h09min de duração, “Superman” se perde em meio à falta de desenvolvimento dos não protagonistas para focar no centro conflitante da narrativa. Entretanto, como dito anteriormente, o longa assume, surpreendentemente, uma forma política ao questionar o papel do Superman em meio a um conflito geopolítico considerando seus ideais, ressignificando o lema “verdade, justiça e o jeitinho americano” por “verdade, justiça e liberdade” e argumentando que talvez ter empatia e esperança por dias melhores, nos dias de hoje, seja ser fora da curva — ou punk rock, como Lois e Clark se intitulam no longa. É admirável que um filme blockbuster, de tamanho alcance cultural, posicione-se de forma tão clara, considerando o cenário atual, consumido por guerras de domínio e poder, egocentrismo político e preconceito — que Hollywood em sua maioria parece ignorar, alimentando a obstrução crítica de um público que parece, cada vez mais, se preocupar menos com o resto do mundo.
Atualmente “Superman” estabiliza 83% de aprovação crítica e 93% de aprovação do público no Rotten Tomatoes.
TRAILER
SUPERMAN
Estados Unidos, 2025
Direção: James Gunn
Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult, Edi Gathegi, Maria Gabriela de Faría, Isabela Merced, Nathan Fillion
Distribuição: Warner Bros. Pictures

