Certamente, você conhece a história da garotinha perdida que se junta com um leão, um espantalho e um homem de lata para atravessar uma estrada de tijolos amarelos e fazer pedidos a um poderoso mágico, mas, no fim, tudo que tanto desejavam sempre esteve dentro deles. A mensagem universal e sincera de “O Mágico de Oz” nunca saiu de moda; o que era, em 1900, só um livro infantil, já ganhou inúmeras adaptações nas mais diversas mídias, mas só foi imortalizado mesmo em 1939, quando chegou às telonas, acompanhado da beleza do Technicolor e da doçura de Judy Garland. Muito além do arco-íris, a mitologia de Oz era rica demais para se limitar às aventuras de Dorothy e seus amigos, e foi com isso em mente que o autor Gregory Maguire publicou, em 1995, o romance “Wicked: A História Não Contada Das Bruxas De Oz”. Não demorou quase nada para que a relação da bruxa má com a bruxa boa, escrita por Maguire, deixasse as páginas dos livros e arrebatasse o mundo nos palcos de teatro, garantindo inúmeros prêmios e se mantendo em cartaz na Broadway desde a sua estreia, em 2003, até hoje. Só agora, 21 anos depois, o musical “Wicked” enfim conquistou a sua almejada versão cinematográfica. A primeira parte desta produção da Universal Pictures estará disponível nos cinemas brasileiros oficialmente a partir de 21 de novembro.
Bem antes de cumprirem seus destinos como Glinda, a Boa, e a Bruxa Má do Oeste, Elphaba, uma jovem incompreendida por causa de sua pele verde incomum, conhece a vaidosa Galinda, uma garota tão popular quanto ambiciosa. As duas estudam magia juntas na Universidade de Shiz, no fantástico Mundo de Oz, e, conforme são obrigadas a conviver uma com a outra, afloram uma amizade improvável, mas igualmente profunda, que acaba as colocando no caminho para um encontro decisivo com o Maravilhoso Mágico de Oz. Dirigido por Jon M. Chu (“Podres de Ricos”, 2018), a aventura, guiada pelas aclamadas canções já conhecidas do musical original, tem nos papéis de Elphaba e Glinda, respectivamente, a vencedora do Tony Cynthia Erivo (“Harriet”, 2019) e a vencedora do Grammy Ariana Grande (“Não Olhe para Cima”, 2021). Ainda integram o elenco nomes como Jonathan Bailey (“Bridgerton”, 2020), Michelle Yeoh (“Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, 2022) e Jeff Goldblum (“Jurassic Park”, 1993).

Faz algum tempo que o cinema musical vinha tendo dificuldades em emplacar um projeto que fizesse jus à grandiosidade do gênero… E, bom, esse hiato termina agora. Este é um filme que, em momento algum, tentou parecer diferente; muito pelo contrário, sempre teve orgulho de exibir sua essência colorida e escancarar a paixão dos seus realizadores, sentimento esse que transborda da tela e preenche sem esforço os que estiverem dispostos. A devoção do diretor a sua referência ressalta a veia teatral que sustenta o enredo, o que, na prática, está perfeitamente alinhado com a direção de arte e a fotografia, culminando em cenários belíssimos, figurinos encantadores e apresentações majestosas, sobretudo, com muito coração. Quanto ao que é cantado, os fãs não irão se decepcionar, visto que a tradução audiovisual conseguiu elevar as músicas, que já eram icônicas, a um estágio de catarse tão avassalador que equiparar esta versão de “Defying Gravity” à clássica “Somewhere Over the Rainbow” não seria nada absurdo.
Talvez o fator determinante para todo o fascínio com essa trama seja o seu senso de humanidade. Abrir mão do maniqueismo ao redor da Bruxa Má do Oeste, personagem que sequer foi digna de receber um nome, em prol de refletir sobre a problemática reducionista da ideia de uma maldade inata ao ser humano, acaba revelando um roteiro simples, mas que escalona e floresce justamente pela sua honestidade. Roteiro esse que consegue equilibrar com maestria o humor e o drama, arrancando lágrimas e sorrisos quase na mesma intensidade; tudo ganha ainda mais significado com a atmosfera interessantíssima de Oz, que, entre Munchkinland e a Cidade das Esmeraldas, faz questão de evocar o otimismo atemporal característico da história original. No entanto, por mais que eu entenda e respeite a decisão de dividir a jornada em duas partes, esta escolha, de certo modo, empobreceu a individualidade do longa, que por ter uma narrativa pela metade, acaba, por vezes, se estendendo excessivamente em certas cenas, mesmo quando elas não tem mais o que dizer.

Ao que toca às atuações, o elenco esbanja carisma e parece ter sido escolhido a dedo, mas o destaque, de fato, fica com a dupla Ariana Grande e Cynthia Erivo. Se alguém ainda duvidava da capacidade dramática e vocal de qualquer uma das duas, não restam mais dúvidas: elas definitivamente nasceram para este papel. As atrizes já são brilhantes sozinhas, mas quando juntas, enfeitiçam o público com uma química de outro mundo. Grande imprime, na sua Glinda, a leveza e o cinismo complementares à solidão e sobriedade da Elphaba de Erivo, mas ambas permanecem envoltas por uma inocência esperançosa que é o que as une e torna o conjunto da experiência tão sensível e genuíno.
Em conclusão, o filme propõe uma linda viagem pelo mundo de Oz, conduzida com a sensibilidade que só a música é capaz de expressar. Muito além do preto e do branco, são nos tons de cinza que vivem a coragem, a inteligência e o coração de “Wicked”… ou melhor, nos tons de verde e rosa. No fim, a certeza imposta no início termina com um ponto de interrogação: será que ninguém chora pela bruxa?
Nota: 4/5
TRAILER
WICKED
Estados Unidos, 2024
Direção: Jon M. Chu
Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande, Michelle Yeoh
Distribuição: Universal Pictures

