Desde que o mundo é mundo, a humanidade tem encontrado diferentes maneiras de destruir a si própria e tudo o que está ao seu redor. Não é nada complicado encontrar no passado – e infelizmente, nem no presente – episódios variados ao redor do globo de conflitos ideológicos que resultaram em guerras, genocídios, opressão e violência generalizada. No Brasil, não restam dúvidas de que um dos períodos de maior barbárie da história do país foi as décadas de tirania sob o regime militar instaurado com o golpe de 64, marcadas pela perseguição e tortura dos “opositores’’ em nome de uma caça às bruxas organizada em prol de neutralizar uma suposta ameaça comunista. A ditadura levou muitas vítimas, mas deixou cicatrizes profundas naqueles que ficaram; baseado na vivência da sua família durante os anos de chumbo, o escritor Marcelo Rubens Paiva publicou em 2015 o livro biográfico “Ainda Estou Aqui”, que agora, em 2024, ganha um filme homônimo através das lentes do diretor Walter Salles (“Central do Brasil”, 1998). A produção foi escolhida como a candidata brasileira na corrida pelo Oscar em 2025, mas já vem chamando atenção internacional desde a sua estreia no 81.º Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde recebeu o prêmio de melhor roteiro. O longa tem a sua estreia nos cinemas nacionais marcada para a quinta-feira, 7 de novembro.
Rio de Janeiro, início dos anos 70. O país enfrenta o endurecimento da ditadura militar. Estamos no centro de uma família, os Paiva: Rubens, Eunice e seus cinco filhos. Vivem na frente da praia, numa casa de portas abertas para os amigos. Um dia, Rubens Paiva é levado por militares à paisana e desaparece. Eunice – cuja busca pela verdade sobre o destino de seu marido se estenderia por décadas – é obrigada a se reinventar e traçar um novo futuro para si e seus filhos. Fernanda Torres (“Tapas & Beijos”, 2011-2015) dá vida a protagonista Eunice Paiva, enquanto Selton Mello (“O Auto da Compadecida”, 2000) co-estrela no papel de Rubens Paiva. Além destes, integram o elenco nomes como os de Valentina Herszage (“Quanto Mais Vida, Melhor!”, 2021-2022), Humberto Carrão (“Marighella”, 2019), Olivia Torres (“O Rebu”, 2014) e a gloriosa Fernanda Montenegro (“Central do Brasil”, 1998).

Os horrores da ditadura já não deveriam ser mais novidade para nenhum brasileiro, no entanto a ferida ainda está aberta de tal forma, que representações como essa se fazem mais necessárias do que nunca. A direção tem tanta sensibilidade no modo em que traduz o seu texto em imagem que é capaz de deixar a audiência com os sentimentos à flor da pele durante toda a exibição, e, por mais sutis que sejam as cenas, ressoam com tanta brutalidade que permanecer indiferente é uma tarefa impossível. Também é mérito da técnica a contextualização e ambientação imersivas que com uma direção de arte e fotografia certeiras, ilustram metafórica e visualmente a sensação angustiante de ver um verão carioca caloroso e colorido com a família se transformar repentinamente em um terrível e longo inverno, escuro e solitário. Ainda nessa parte, outra ferramenta que intensifica o que já se sentia é a mixagem de som, que alinhada em perfeição com a montagem, dá ao público a percepção sufocante de ouvir o que não se pode ver.
Deixando a técnica um tanto de lado e partindo para a narrativa, esta é, em primeiro lugar, uma trama sobre memória, e é isso que a torna tão poderosa! A unidade familiar de Eunice foi desmontada bruscamente da maneira mais cruel possível, e aquela mãe de uma família de classe média alta da zona sul do Rio de Janeiro, que outrora vivia uma vida pacata e feliz com o marido e os filhos, passa a ver a si mesma e aos seus como alvo de algo muito maior. Sem seu marido, tudo o que resta para ela são as lembranças de tempos melhores. O drama cresce justamente nesse contraste, e o roteiro é tão bem escrito que significantes banais, como “ir prestar depoimento”, ganham significados que viabilizam sentir o peso de cada palavra, e o conjunto fica ainda mais forte quando amplificado pela atuação gigantesca de Fernanda Torres.

Torres consegue materializar em totalidade, na sua atuação, a dissonância de uma personagem tão frágil quanto inatingível, encenando uma fortaleza desabando pelo lado de dentro dos muros. Deixando de lado qualquer clubismo, não é exagero afirmar que essa é, não só a melhor performance da carreira da atriz, como uma das melhores performances do ano, e esse é um título que derrota em prêmio algum poderá tirar. Ao lado dela, Selton Mello reafirma o seu valor, mas, se houver espaço para outra performance igualmente brilhante, é a da catártica Fernanda Montenegro, que atua quase como uma força da natureza, onde, sem falas e com uma única cena, é capaz de deixar uma sala de cinema inteira aos prantos.
No fim, com o contexto atual de ascensão da extrema direita no Brasil e a tentativa de apagamento dos danos causados pela ditadura no país, “Ainda Estou Aqui” surge como um belíssimo lembrete social dos erros do passado, carregando na história de Eunice uma série de reflexões emocionantes e conflituosas, mas que desenham a extrema importância da memória, para então rememorar coletivamente que não existe futuro sem passado.
Nota: 5/5
TRAILER
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Brasil, 2024
Direção: Walter Salles
Elenco: Fernanda Torres, Selton Mello, Fernanda Montenegro
Distribuição: Sony Pictures

