Desde o seu surgimento, o Batman tem sido, sem dúvida alguma, uma das figuras mais icônicas de toda a cultura pop. Ao longo das décadas, a popularidade do vigilante mascarado atingiu níveis astronômicos, resultando em diversas adaptações para as mais variadas mídias. Como não existe um herói sem o seu vilão, não demorou nada para que fossem criados inimigos à altura do homem-morcego, dentre eles, o Coringa. A insanidade do príncipe palhaço do crime conquistou a atenção e o carinho do público, promovendo-o praticamente ao mesmo status de popularidade de seu adversário. Com isso em mente, o diretor Todd Phillips emancipa o personagem de seu lugar histórico de antagonista no ousado “Coringa”, filme vencedor de dois Oscars que explora a mente perturbada do psicopata da DC em uma sociedade doentia, num universo sem o cavaleiro das trevas. Depois do sucesso de crítica e audiência, agora em 2024, Phillips assume novos riscos e dá vida a “Coringa: Delírio a Dois”, aguardada sequência musical do longa de 2019. A produção da Warner Bros. estreou oficialmente nos cinemas brasileiros no dia 3 de outubro.
Dois anos depois de iniciar revoltas populares por toda Gotham, Arthur Fleck está institucionalizado em Arkham à espera do julgamento por seus crimes como Coringa. Enquanto luta com sua dupla identidade, Arthur se depara com o amor da provocadora Lee Quinzel, que o incentiva a abraçar a loucura, encontrando a música que sempre esteve dentro dele. Joaquin Phoenix (HER, 2013) retorna ao papel duplo de Arthur/Coringa, que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator, enquanto a também vencedora do Oscar Lady Gaga (Nasce Uma Estrela, 2018) faz sua estreia como Lee/Harley Quinn. Ainda integram o elenco nomes como Brendan Gleeson (Os Banshees de Inisherin, 2022), Catherine Keener (Corra, 2017) e Zazie Beetz (Deadpool 2, 2018).

Amando ou odiando, é inegável que, no instante em que surgiram conversas iniciais sobre uma sequência de “Coringa” – originalmente um thriller dramático – e a ideia de um musical foi mencionada, boa parte dos fãs ficou apreensiva com uma abordagem tão distinta da do filme original. Tirando o elefante da sala, mesmo com declarações à imprensa que dizem o contrário, este definitivamente é um musical! Contudo, esse fato está longe de ser um ponto negativo, muito pelo contrário: as sequências grandiosas de cantoria e dança trazem o contraste perfeito entre a sobriedade de um hiper-realismo depressivo e a fantasia insana de dois lunáticos vivendo um delírio de grandeza, e salvo raras exceções, muito bem inseridas no contexto total, se utilizando o tempo todo de artifícios detalhistas, como o modo de cantar mais ou menos afinado dos atores, para diferir a ilusão do mundo real.
Ainda no que diz respeito às músicas, a trilha não subestima o espectador (embora talvez devesse), articulando escolhas inteligentes de canções nada óbvias, utilizando totalmente da subjetividade das letras para avançar teatralmente sua história e maximizar a experiência do todo. Saindo do som e passando para a imagem, o longa repete os feitos de seu antecessor, entregando uma fotografia irretocável com quadros que preenchem a tela e encantam os olhos, e dessa vez o colírio é amplificado com a adição de intervenções lúdicas que dão poder para a direção de arte brincar com cores ainda mais vibrantes em cenários ainda mais surreais. No entanto, o visual deslumbrante, ora soa como uma maquiagem para um roteiro fraco que tem dificuldade de se sustentar por si só.

Frustrando muitos, o delírio a dois indicado no título não é o relacionamento de Coringa e Arlequina – como foi dado a entender durante toda a campanha de marketing – e sim o de Arthur Fleck com ele mesmo. A dicotomia Arthur/Coringa é fascinante, propondo reflexões sobre a espetacularização da tragédia, especialmente no que diz respeito ao circo midiático em torno de casos criminais e o fanatismo que decorre daí, mas Phillips acaba inserindo tantas distrações que se perde na sua própria bagunça e acaba esquecendo de solidificar a sua trama central… afinal, não há circo sem plateia! A direção opta por explorar quase que unicamente o ponto de vista de Arthur, lembrando só quando lhe convém que o Coringa é um ídolo político. Talvez o mais decepcionante seja que Lee foi construída exatamente com essa função narrativa, visto que Harley faz de tudo para que seu amado abrace 100% a figura do palhaço, e ela possa estar nos holofotes ao seu lado. Ao invés de explorar mais as motivações da personagem de Gaga e consequentemente mostrar a movimentação externa dos seguidores de Joker, a direção prefere colocar suas ações em diálogos curtos e expositivos saídos da boca de outros personagens.
Quanto às performances, Phoenix repete o mesmo nível surreal de excelência da produção de 2019, mergulhando novamente em toda a agonia e estranheza que seu Coringa traz, fisicamente e nas sutilezas de sua atuação. Já Gaga não fica muito atrás, conseguindo novamente provar o seu valor, transparecendo no olhar o desequilíbrio digno de Harley Quinn e entregando uma nova e interessante versão de um papel já amado por todos. No fim, o melancólico “Coringa: Delírio a Dois”, ainda que com dificuldades de execução, tem boas premissas que aparam as arestas deixadas pelo seu antecessor, e mesmo que sem necessidade, propõe uma reentrada nesse universo, que, permeado por romance, obsessão e glorificação, acaba culminando em um irônico mar de solidão.
Nota: 3.5/5
TRAILER
JOKER: FOLIE À DEUX (“Coringa: Delírio a Dois”)
Estados Unidos, 2024
Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Lady Gaga
Distribuição: Warner Bros. Pictures

