Dirigido pelo carioca Walter Salles (Central do Brasil) e protagonizado por Fernanda Torres (Os Normais), o longa “Ainda estou aqui” está sendo recepcionado por diversas premiações e festivais internacionais, recebendo até a indicação para o troféu Leão de Ouro, do Festival de Veneza. A terceira parceria entre Salles e Torres, é inspirada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que narra a história de sua família em tempos de ditadura após seu pai ser cassado pelos agentes militares e sua mãe precisar se reinventar para cuidar dos filhos.
A expectativa para uma possível eleição da obra ao Oscar animou o público nas redes sociais, levando até a certas piadas de que essa seria a “redenção” de Fernanda Montenegro após o fatídico episódio em que a atriz foi indicada à Melhor atriz por seu papel na obra Central do Brasil, em 1999, mas também cresceram dúvidas de como funcionam as indicações de obras à grandes premiações.
Oscars e Emmy
Hoje, o mercado de entretenimento dos EUA é motivado por meio de 4 premiações simbolizadas pela sigla EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony), além de outras sobressalentes como o Globo de Ouro e o VMA. No entanto, apenas o Oscar e o Emmy estão ligados à produção audiovisual, cada um premiando, respectivamente, os melhores filmes do último ano e o outro, as produções televisivas.
Conhecidas como as duas maiores premiações do entretenimento, ambas carregam modos parecidos de votação para eleger seus indicados e, posteriormente, seus vencedores. Nos dois casos, o primeiro passo é com o próprio estúdio que está distribuindo a produção. Ele fica responsável por criar o marketing por cima das séries e filmes para fazer com que os votantes tenham certo interesse em consumir aquele conteúdo antes mesmo da temporada de votação, além de criar apelo gerando fãs por todo o mundo. Nessa etapa, eles também ficam responsáveis por enviar a produção para as premiações na categoria que cada uma se encaixa, com exceção do Oscar de Melhor Filme Internacional, que deve ser enviado pelo comitê de cada país representante. Para ser indicado, um filme precisa se encaixar em diversas regras.
Aí entra o novo filme de Salles. Diversas vezes, premiações e festivais ao redor do mundo são o palco perfeito para apresentar ao público e críticos as obras que nem sempre poderão concorrer espaço com o que está em mainstream, como é o caso de “Tipos de Gentileza”, novo filme do aclamado diretor Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas) que teve sua estreia no festival de Cannes, sendo aclamado pelo público presente.

Após o processo de divulgação, as obras entram em votação dentre os membros de cada premiação. No Oscar, os responsáveis são os mais de 10 mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que, geralmente, possuem alguns dias em Janeiro para avaliar quem deveriam ser os indicados e semanas depois entram em votação novamente para escolher os ganhadores. Já no Emmy, a Academia de Artes e Ciências Televisivas que comanda a votação, nela, os profissionais associados são separados por sua especialização (diretores, atores, produtores, etc) e votam apenas nela, tanto para encontrar os indicados, quanto para o resultado final. Entretanto, todos votam para as duas principais categorias, que são: melhor série de comédia e drama.
Polêmicas
Em 2021, Emily em Paris (Darren Star) foi a personagem principal de uma das maiores polêmicas envolvendo as indicações ao Globo de Ouro. Em um ano em que séries aclamadas pela crítica e público, como ‘I May Destroy You”, foram completamente esnobadas pela premiação, a sitcom da Netflix conseguiu um espaço entre os indicados a Melhor Série de Comédia, levantando suspeita entre todos que possuem um olhar crítico sobre a premiação, já que, apesar de conquistar o público, não é uma obra comum de se ver nesses espaços.
Segundo artigo da Cosmopolitan, a academia que escolhe os indicados da premiação era formada por 100 jornalistas localizados ao redor do mundo, uma equipe sem uma pessoa preta sequer. Além disso, segundo revelado pelo LA Times, a Paramount (produtora da série) convidou cerca de 30 membros da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), para uma caríssima visita aos sets de gravação em Paris durante a press season da produção. A viagem, que foi regada de vinhos e comidas caras, marcou a hospedagem dos jornalistas em um hotel 5 estrelas com quartos que custam, aproximadamente, R$7900 por noite.
Em um depoimento de um dos jornalistas que não participaram da viagem, ele comenta que houve bastante backlash durante as votações, expressão americana para um certo tipo de quebra de senso comum e boas morais durante atos judiciais.
Além disso, diversas acusações de falta de diversidade dentre os votantes do Globo de Ouro levou a uma série de protestos por atores que se recusaram a ir à premiação, que até 2021 não possuia nenhum negro em sua banca votante. O fato se soma à falta de diversidade nas indicações e aos “presentes” anteriormente citados que se tornaram cada vez mais comuns.

