Saído de dentro da mente imaginativa do autor Frank Herbert, um complexo universo sci-fi distópico ganha vida nas páginas dos livros de “Duna”. Esse material, desde sua publicação original em 1965, mudou completamente o rumo da cultura pop, servindo de base e inspiração para lendas como George Lucas (Star Wars) e George R. R. Martin (Game Of Thrones) darem ao mundo algumas das sagas mais amadas da história do entretenimento. Apesar de algumas versões audiovisuais não tão bem sucedidas já terem alcançado a luz do dia, desde 2021 o diretor Denis Villeneuve vem conseguindo construir e consolidar sua adaptação. Bem sucedida em público e crítica, “Duna: Parte Um” chegou a vencer 6 estatuetas no Oscar de 2022. Agora em 2024, é chegada a hora do primeiro capítulo dessa odisseia ser finalmente concluído em “Duna: Parte Dois”. O longa, que foi filmado em IMAX, é uma parceria da Warner Bros com a Legendary Pictures e já está disponível nos cinemas brasileiros desde o dia 29 de fevereiro.
Aqui, o público testemunhará a jornada mítica de Paul Atreides, que é interpretado por Timothée Chalamet, agora ao lado de Chani, vivida por Zendaya, e dos Fremen. Paul está disposto a provocar uma guerra se necessário, tudo isso para se vingar dos conspiradores que destruíram sua família. Diante da difícil escolha entre o amor de sua vida e o destino do universo conhecido, ele dará tudo de si para evitar o futuro terrível que só ele pode prever. Além de Chalamet e Zendaya, também integram o elenco nomes como Florence Pugh, Austin Butler, Rebecca Ferguson, Stellan Skarsgård, Javier Bardem, Josh Brolin e Dave Bautista.

Agora na segunda parte, Villeneuve reafirma o primor técnico de sua direção, reprisando o espetáculo visual de seu trabalho anterior. A fotografia deslumbra os olhos de quem vê no que preserva os planos grandiosos e contemplativos do primeiro, mas sem se acomodar, vai além e deixa explícito o cuidado criativo dos realizadores, ao expor camadas de detalhe até para as cenas em preto e branco. Novamente, o uso exemplar do CGI é capaz de tornar críveis as criaturas mitológicas e os planetas fantasiosos, contribuindo para uma melhor ambientação do território. A montagem costura imagem e som com assertividade, criando sequências genuinamente envolventes e transições de cair o queixo, que somadas a trilha sonora, transformam coisas simples em artifícios para elevar a tensão do enredo. Devido ao preciosismo da produção em relação a experiência cinematográfica, é notável que esse projeto foi pensado desde o princípio para as telonas, e por isso, assistir a esse longa em uma sala de cinema adequada faz total diferença; o espectador é transportado para uma imersão tão intensa nos desertos de Arrakis, que se torna quase viável esquecer da realidade.
Do mesmo modo que a primeira parte buscou explorar um viés puramente político do conflito, a segunda parte submete o enredo ao crivo da religião, ilustrando com maestria como um fundamentalismo religioso pode ser usado como estratégia (também política) de controle das massas. Ainda ressalto positivamente na trama o êxito na expansão de mundo para melhor compreensão do contexto, solidificando dois conceitos interessantíssimos que já haviam sido introduzidos anteriormente, mas que agora ganharam a chance de serem aprofundados: A relação dos Fremen com a totalidade do deserto, desta vez na prática; e o modus operandi das Bene Gesserit para se manterem influentes em todo o sistema conhecido. O roteiro desenvolve personagens complexos e nebulosos, alternativa essa, que acaba eliminando da narrativa o maniqueísmo ordinário muito comum nesse tipo de filme.

O arco do desenvolvimento de Paul Atreides como protagonista é excelente, à medida que as suas ideias começam a ir de encontro com as de Chani, o contraste ideológico desenha os rumos da história e evidencia a evolução de ambos os personagens ao longo de todo o trajeto. Zendaya e Chalamet convencem como os jovens amantes, e mais do que isso, entregam performances coesas e maduras capazes de imprimir sentimentos obscuros como confusão e angústia, em alguns momentos sem sequer precisarem de diálogos. Destaco ainda no elenco a brutal interpretação de Austin Butler como o sádico Feyd-Rautha, embora num papel unidimensional, o ator desaparece e só se enxerga um vilão dotado de uma presença imponente e amedrontadora. No entanto, dentre as novas aquisições do elenco, sinto falta da presença de Florence Pugh, que mesmo desfilando figurinos hipnóticos na pele da Princesa Irulan, tem pouquíssimo tempo de tela e quando surge, está sempre na posição de intermediária.
Apesar da duração de 2h e 47 min, o ritmo frenético dos acontecimentos causa a sensação de que tudo aconteceu rápido demais. Em contrapartida, a overdose de eventos acaba confundindo a cabeça do público e embaralhando a ordem dos fatos, porém sem ser incômodo ao ponto de comprometer a vivência. No fim, o desejo de experienciar o cinema é reavivado, trazendo um épico de ficção científica como não se faziam há décadas, provando novamente, que blockbusters podem e devem ser feitos com qualidade. “Duna: Parte Dois” é completo! Mesmo entretendo com as guerras fictícias pelo controle das especiarias, consegue provocar reflexões concretas que atravessam diretamente nossos modelos de sociedade… afinal, como diz o próprio Lisan al Gaib, “aquele que detém o poder de destruir, controla tudo”.
Nota: 4,5/5
Trailer
DUNE: PART TWO (“Duna: Parte Dois”)
Estados Unidos, 2024
Direção: Dennis Villeneuve
Elenco: Zendaya, Timothée Chalamet, Florence Pugh, Austin Butler, Javier Barden, Rebecca Ferguson, Stellan Skarsgård, Josh Brolin
Distribuição: Warner Bros. Pictures

